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"Errar é humano!".

A IMPORTÂNCIA DO ÁRBITRO

NA DEFINIÇÃO DO ESPÍRITO DESPORTIVO

Integração da componente psicológica na arbitragem

 

 

Miguel Moreira* e Helder Fernandes

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

 

Resumo

A definição de uma concepção mecanística dos demais agentes desportivos, em que o erro é fonte de repressões e críticas, em vez de actuar como fonte de aprendizagem, tem incutido a adopção de uma perspectiva cingida aos efeitos primários dos “erros de arbitragem” no resultado das competições em questão. Tal reflexão pessoal, pretende claramente sensibilizar todos os agentes envolvidos no contexto desportivo, para a importância da defesa dos valores desportivos, numa sociedade cada vez mais “desprovida de tais”. Alertamos igualmente, a necessidade de formação dos árbitros quanto à preparação psicológica e consequente intervenção das respectivas entidades regionais e nacionais.

 

 

Introdução

“Errar é humano!” Esta é sem dúvida uma expressão que tem verdadeiro significado no contexto desportivo e mais propriamente, nas inúmeras funções e repercussões que uma decisão de arbitragem induz num determinado desempenho desportivo, quer seja numa perspectiva colectivista ou individualista.

 

A concepção de existência de uma qualquer manifestação desportiva sem a ocorrência de erros ou denotação de dificuldades, por quaisquer dos agentes desportivos envolvidos, é a afirmação da existência do “atleta máquina”, do “treinador máquina” e por que não dizer, o “árbitro máquina”. Só que tal sonho imaginário, retiraria toda a beleza deste espectáculo, dado que não ocorreria hierarquização de prestações desportivas e resultados, eliminando assim os sentimentos de alegria e júbilo inerentes à vitória, assim como, as tristezas e desânimos contidos no momento da derrota. Por outro lado, o termo competição seria “apagado” para sempre do vocabulário desportivo, dado somente existirem atletas “olimpicamente definidos”, não existindo assim lugar, para a comparação de competências, com base em normas e regulamentos, fielmente colocados em prática pelos “senhores do apito”.

 

Contudo e dado que até ao presente momento, as novas tecnologias genéticas não conseguiram “fabricar” o atleta ideal, com base numa perspectiva mecanística, este espaço de reflexão pessoal pretende sensibilizar os demais agentes desportivos, para a importância da vitória segundo os princípios do espírito desportivo e correcta equiparação de performances pelos diversos atletas/equipas, e, consequentemente, alertar para a necessidade de formação e treino dos árbitros relativamente ao factor psicológico, delineando a internalização de correctos valores ético-morais.

 

Será o Espírito Desportivo importante?

Em todas as modalidades desportivas, cada vez mais é notória a desvirtualização dos ideais desportivos, definidos com base na perspectiva britânica do “fair-play”. No início deste novo século, têm-se multiplicado as avaliações e reflexões milenares, algumas atravessadas por dúvidas e interrogações várias, reflectindo um certo “mal-estar de civilização” que projecta um cepticismo desencantado sobre um futuro que se antevê incerto e problemático (Pereira, 1999).

 

Actualmente, fala-se de uma profunda crise de valores, característica esta de uma sociedade progressivamente desumanizada e cada vez mais “adepta” da violência, tendo como obsessões a lógica da competição, poder e consumo. Urge como fulcral, a definição de uma consciência crítica, desprovida de preocupações humanísticas e centrada na defesa e “indução da aculturação” de valores sociais a nível moral, pelo que no contexto desportivo, o risco é definido pela defesa de atitudes conforme o Espírito Desportivo. A nossa preocupação considera mesmo, que somente esta componente representa a possibilidade de superação e eliminação, de certos sinais do nosso tempo, como é a exacerbação da violência e do desrespeito dos demais agentes desportivos, recorrendo a todo o tipo de métodos e técnicas (biológicas ou não), para a obtenção de um momento de consagração.

 

No entanto, alertamos desde já, que mesmo para os mais cépticos, o nosso discurso não pactua nem sobrevive à custa de falsidades e ironias, pelo que a prática de uma qualquer actividade desportiva, de acordo com os princípios éticos, é para nós uma preocupação constante e irrevogável. De tal forma, que diversas constatações, conclusões e recomendações foram já definidas e apresentadas em espaço próprio (Fernandes, Costa & Moreira, 2003; Fernandes et al., 2003).

 

Querer ganhar com lealdade uma competição, esperar pacientemente que ganhe a sua equipa preferida e encorajá-la enquanto na situação de espectador, está de acordo com os princípios do Espírito Desportivo, somente na condição de que a vitória não inspire vaidade e arrogância ao vencedor, nem muito menos, ódio e antipatia ao vencido. Para tal, os incitamentos a uns, não devem ser acompanhados de manifestações hostis a outros, bem como, na condição de que os êxitos e as melhores performances sejam aplaudidas e reconhecidas, quaisquer que sejam os seus protagonistas.

 

Ser um bom desportista, é querer ser o melhor, sem deixar de aceitar que o melhor deve ganhar e obter reconhecimento, mesmo que tal seja o adversário. Só assim, o Desporto na sua concepção dualista de actividade humana e socialmente desejável, claramente incute os valores desportivos definidos como correctos e adequados, eliminando possíveis problemas inerentes à sua manifestação.

 

Enfim, o Espírito Desportivo é um dos temas fundamentais e fulcrais do futuro do Desporto, uma vez que exige uma atitude moral fundamental. Tal conceito, é um dos valores inerentes ao ideal de demonstração de atitudes do atleta olímpico, concebido pelo Barão de Coubertin. Deste modo, este pressuposto não significa apenas o respeito pelas regras de jogo e oficiais, mas engloba sobretudo, um conjunto de comportamentos que o atleta deve manifestar, de forma a assegurar a sua integridade física e psicológica, respeitando o adversário, como se de seu companheiro se tratasse.

 

Até agora temos abordado uma perspectiva centrada no atleta e seu rendimento. Contudo, tal não descurou o “actor principal” da presente reflexão, sendo nosso intuito a compreensão dos efeitos da competição nos atletas, fornecendo exemplos adequados para a correcta demonstração de Espírito Desportivo.

 

O árbitro é o agente que actua em defesa do cumprimento das regras. Por isso, ele é igualmente um juiz. Tal, tem uma autoridade delegada pelos organismos desportivos para dirigir e homologar os resultados de uma competição desportiva, pelo que somente a arbitragem valida o resultado de uma competição. Contudo, neste ponto surge o verdadeiro paradoxo da situação: em nenhuma outra área social, o juiz está tão próximo de se transformar em réu. Réu dos erros cometidos, das faltas não marcadas, das indecisões momentâneas e mais “sonante”, das influências que alguns resultados de competições despontam, mesmo para além, do palco onde a competição decorreu[1].

 

É usual assistirmos a diversas “discussões acesas” acerca de certas decisões tomadas, nos demais contextos (estádio, pavilhão, café, autocarro,...) existindo sempre argumentos válidos para os intervenientes, quer sejam fundamentados em regras, ou na maioria das vezes, em episódios anteriores, de preferência envolvendo as “equipas rivais”. Tal descaracteriza claramente muitas das mensagens inerentes ao Espírito Desportivo e por sua vez, alenta a que jovens jogadores considerem válido discordar de decisões e até mesmo, protestar, muitas das vezes incentivados por estes “treinadores de bancada” (Almeida, Paiva, Rodrigues & Sousa, 1991; Coakley, 1990; Simões, Böhme & Lucato, 1999).

 

Outro aspecto inerente à influência dos demais agentes de socialização, é a formação que os treinadores e professores de Educação Física possuem ao nível da Ética Desportiva, dado que muitas das vezes, são estes os responsáveis pela transmissão de valores de fomentação do espírito desportivo ou de incentivo à demonstração de rudeza e de atitudes ilegais e violentas, com vista à obtenção da vitória a qualquer custo. Tal problemática, despontou um estudo realizado por Fernandes, Costa & Moreira (2003), que envolveu 191 alunos de uma licenciatura em Educação Física e Desporto (95 indivíduos do sexo masculino e 96 do sexo feminino). Os principais resultados demonstraram que com base numa análise generalista, os indivíduos da amostra concordaram em assumir atitudes perante situações desportivas, consoante os princípios básicos do desportivismo e fair-play. Contudo, quando diferenciando a amostra por sexo e por envolvimento desportivo, denotou-se que os elementos do sexo masculino e os não praticantes de qualquer modalidade (para além das actividades inseridas no currículo da licenciatura), foram aqueles que demonstraram atitudes mais agressivas e menos cooperativas, aceitando com mais facilidade certos comportamentos ilegais como perfeitamente legítimos, face aos objectivos pretendidos para a competição. Em suma e com base nos dados obtidos, sugeriu-se que o principio fundamental da prática desportiva de crianças e jovens, deve sempre tomar em consideração e orientar-se pelo interesse do jovem que a pratica, tendo todos os agentes de socialização e em especial, os treinadores e professores de Educação Física, a responsabilidade e obrigatoriedade de promover e zelar pelo respeito dos valores desportivos, durante a sua intervenção.

 

Considerando igualmente a importância da formação desportiva dos jovens, com base em princípios éticos adequados, emergiu outra problemática inerente às aulas de Educação Física e ao contexto motivacional proporcionado pelo professor. Para tal, Fernandes et al. (2003) efectuaram um estudo em 422 alunos de Educação Física (221 do sexo masculino e 201 do sexo feminino), com uma média de idades de 13.73±2.46 anos, tendo idades compreendidas entre os 9 e os 21 anos de idade (5º ao 12º ano de escolaridade). Os resultados mais relevantes demonstraram que os alunos dos 13 aos 15 anos, assumem-se como sendo aqueles que mais concordam com atitudes anti-desportivas em aulas de Educação Física, revelando assim maiores níveis de orientação para o ego. Tal facto, concordante com Vallerand e Losier (1994), denota que os adolescentes estão mais predispostos a demonstrar uma atitude negativa perante a participação desportiva e mostrarem menor preocupação com o respeito pelas regras e oficiais de jogo. Demonstrou-se igualmente, que o “favorecimento” de um contexto orientado para o ego, isto é, onde “impera” a competição, o vencer a todo o custo, o querer ser melhor que o colega e/ou adversário, gera uma necessidade de recorrer a todos os meios e aceitar valores individualistas e negativos, como única forma de obter a vitória e o reconhecimento social.

 

As competências psicológicas das arbitragem

Considerando todos estes aspectos envolventes às decisões que os árbitros tomam durante uma competição, é urgente ponderar que a cada agente desportivo incubem diversas tarefas e funções, não devendo ocorrer intromissões nas responsabilidades daqueles a quem é atribuído um papel a desempenhar. Assim, ao treinador diz respeito a formação e desenvolvimento das capacidades dos atletas, aos dirigentes a definição da “vida” das instituições e clubes desportivos, aos espectadores o incentivo à equipa com que se identifica e aos árbitros, a tomada de decisões e o assegurar do cumprimento das normas da modalidade em questão.

 

Contudo, neste ponto é que a formação destes juizes tem vindo a ser descurada e descuidada, não sendo atribuída a devida importância à preparação psicológica e respectivos benefícios inerentes. O seguinte diagrama pretende simplificar as relações e influências anteriormente referidas, podendo-se observar que das competências base dos árbitros, as mais descuradas tem-se cingido ao nível psicológico.

 

 

Ao assumir a função de arbitragem, um dos muitos acontecimento comuns que ocorrem no final de cada competição, são os pensamentos perturbadores e muitas das vezes conflituosos, aquando da reflexão acerca das decisões tomadas durante o jogo. Enquanto terceira dimensão da competição desportiva (após atletas e treinadores), as suas tarefas estão sujeitas às críticas dos espectadores, caso tenha decorrido uma “mᔠarbitragem. Por outro lado, uma “boa” arbitragem ou até mesmo despercebida, salienta o facto do resultado das provas estar primordialmente dependente das capacidades e desempenhos dos jogadores, devidamente orientados pelos treinadores.

 

Assim, de que modo deve o árbitro julgar a sua prestação? Pelo facto de não ter sido criticado? Pelo facto de não ter sido abordado no final do jogo? Decorrente das principais funções, Weinberg e Richardson (1990) salientam que estes devem cumprir 4 responsabilidades essenciais:

-          assegurar que a competição decorra de acordo com as normas/regras;

-          interferir o mínimo possível, evitando ser um foco de atenção;

-          estabelecer um contexto com os demais intervenientes, facilitador das suas funções; e,

-          demonstrar preocupação com os atletas (ao nível da sua integridade física).

 

É esperado de um árbitro, que este assuma decisões de uma forma calma, controlada, coerente, isentas de pressões e perturbações externas. Estas exigências mentais, conciliadas com os aspectos físicos permitem definir o sucesso ou insucesso da arbitragem. Desta forma, é urgente a compreensão por parte dos demais agentes desportivos, que estas capacidades (leia-se competências), podem ser desenvolvidas de acordo com os diversos princípios do treino desportivo, visando a sua maximização. Igualmente, denota-se que caso não sejam desenvolvidas, as mesmas ir-se-ão “dissipar”.

 

Figura 2 – As características psicológicas da arbitragem

 

Das inúmeras decisões tomadas durante uma competição e dado as regras serem idênticas e similares para todos os contexto desportivos, o mesmo se espera que se reflicta para diferentes equipas e situações. Contudo, a falta de consistência em diferentes decisões, provoca inúmeros problemas, traduzidos em desconfianças, frustrações, confusões e protestos dos atletas, treinadores e espectadores envolvidos. Usualmente, acontece que o próprio árbitro tendencialmente chega a tentar equilibrar as situações, distorcendo o jogo com decisões incorrectas tomadas deliberadamente.

 

Os processos comunicacionais ao longo de uma competição, desde que sustentados pelo respeito mútuo, somente contribuem para um correcto desenrolar da situação desportiva. O árbitro deve, sempre que possível, optar pelo mesmo tratamento aos demais atletas, mantendo a “distância” apropriada para eliminar qualquer dúvida à neutralidade das suas decisões. Igualmente, deve-se evitar debates longos, reiniciando-se o jogo assim que possível (Weinberg & Richardson, 1990).

 

Relativamente a este ponto, convêm definir que a comunicação estabelece-se através de 3 tipos: (i) interpessoal (pelo menos 2 pessoas, numa troca significativa); (ii) não verbal (expressões faciais, gestos,...); e, (iii) intrapessoal (self-talk). Este último tipo, claramente auxilia os árbitros a manter um estado mental apropriado, igualmente servindo como um importante factor motivacional.

 

As tomadas de decisão, são influenciadas por diversos factores, sendo de salientar que estes influenciam todo o processo, desde da captação do estímulo até à respectiva resposta emitida. A atenção, a memória e a duração do estímulo são alguns destes factores que permitem tomar uma decisão após a acção observada. Tal decisão, deve antes de mais, ser tomada com a maior convicção e certeza, evitando possíveis protestos que usualmente ocorrem, quando os atletas e treinadores percepcionam dúvidas por parte dos árbitros.

 

O ambiente que rodeia um jogo, usualmente é repleto de inúmeras emoções e expectativas, quer quanto à competição propriamente dita, como quanto ao resultado final. Deste modo, um árbitro deve manter-se calmo, relaxado, integrando plenamente as suas capacidades físicas, técnicas e psicológicas. Deve igualmente desconsiderar as consequências negativas que possam surgir de possíveis erros, pois de outro modo, nunca estará concentrado em situações reais, mas sim, “imerso” em situações passadas. Para tal, qualquer arbitragem deve ser sustentada pelo auto-controlo, autoridade, liderança e demonstração de prazer na actividade que realiza. Esta componente deve estar claramente presente nos momentos finais de cada competição, em virtude de ocorrerem maior número de infracções, devido à fadiga, percepção do final do jogo e consequência do resultado, por parte dos atletas.

 

Considerando os diversos factores de influência, todas as decisões tomadas devem ser realizadas de uma forma imparcial e honesta, revelando a respectiva integridade que deve caracterizar um “bom” árbitro. Conciliado a este aspecto, a consciencialização das responsabilidades enquanto árbitro, nunca deve originar a demonstração de preferências ou opiniões, que possam pré-determinar as afinidades a um dado atleta ou clube. Enquanto juiz duma competição, deve sempre manter a sua imparcialidade, defendendo a implementação de correctos valores desportivos, em que a competição seja o espaço para a comparação de capacidades e que a derrota, unicamente se traduza pela menor demonstração de competências físicas, técnicas, tácticas ou psicológicas.

 

Os árbitros competentes tem confiança neles próprios e nas suas capacidades (Weinberg & Richardson, 1990). Contudo, uma questão emerge desta relação. Quais as fontes de informação que os árbitros utilizam para definir a sua competência? Considerando os factores extrínsecos, convêm alertar o facto do negativismo estar presente em todos os níveis do sistema desportivo português, pelo que os diversos avaliadores parecem muito relutantes no uso de feedback positivo (Raposo, 1993). Como tal, os árbitros sem descurar as opiniões de outras pessoas significativas, devem claramente efectuar uma reflexão interior, analisando claramente os erros que pensam ter cometido e definindo a correspondência com estados momentâneos de ansiedade. Do mesmo modo, os árbitros devem conhecer quais as suas principais dificuldades, de forma a que não estejam preocupados com acontecimentos que não possam controlar e tenham crédito no melhor desempenho possível das suas capacidades.

 

Por fim, neste ponto, espera-se que o tipo motivacional predominante na arbitragem seja a motivação intrínseca, pois caso seja um qualquer tipo de motivação extrínseca, na ausência do respectivo reforço ou pressão externa, a motivação tenderá a diminuir em função da inexistência de qualquer interesse intrínseco (aprendizagem, empenho, esforço e desenvolvimento de capacidades), traduzindo-se assim no abandono da prática da actividade em questão (Fernandes, 2003).

 

Conclusões

A formação dos árbitros não se deve cingir unicamente à preparação física e técnica para as competições. A preparação psicológica não deve ser descurada, dado que tal como as outras componentes, pode ser desenvolvida através dos mais variados meios e métodos de treino, sendo inegável o seu contributo para a maximização de factores que contribuem para o processo de tomada de decisões. Assim, será necessário compreender o envolvimento multifactorial existente em redor da arbitragem e a importância da sensibilização dos demais agentes desportivos, para que no devido momento contribuam para o desenvolvimento desportivo e não dirijam críticas aos desempenhos dos árbitros, adoptando assim uma concepção mecanística, em que o erro é somente fonte de repressões, em vez de actuar como fonte de desenvolvimento.

 

Em suma, delimita-se a importância da melhoria das diversas capacidades inerentes à arbitragem, como forma de definição de um contexto favorável à implementação de valores sustentados pelo Espírito Desportivo, não desprezando os restantes agentes desportivos (atletas, treinadores, dirigentes, espectadores,...).

 

Como tal, adverte-se que os diversos responsáveis pela formação da arbitragem a nível nacional e regional, “libertem-se” de certos cepticismos emergentes de uma concepção dualista, em que o desenvolvimento das capacidades físicas é efectuado isoladamente das competências psicológicas. Esta é uma visão dualista do indivíduo, herdada da orientação académica, influenciada pelo pensamento Judaico-Cristão (Raposo, 1993). Esta concepção reducionista somente contribui para a limitação das capacidades de tomada de decisões por parte dos árbitros, bem como, não proporciona o desenvolvimento autónomo e consciente das múltiplas competências passíveis de maximização através do treino contínuo, rigoroso, monitorizado e planificado. Vale sempre a pena pensar nisto!!!

 

Bibliografia

Almeida, P.; Paiva, C.; Rodrigues, T. & Sousa, A. (1991). A relação pais-filhos no contexto da competição desportiva. In J. Bento & A. Marques (Eds.), As ciências do Desporto e a prática desportiva: Desporto na escola; Desporto na reeducação e reabilitação – Actas (p. 213-220). Porto: FCDEF-UP.

Coakley, J. J. (1990). Organized sport programs for children. Sport in Society: Issues and controversies (4ª Edição, p. 87-352). Toronto: Mosby College Publishing.

Duda, J.; Olson, L. & Templin, T. (1991). The relationship of task and ego orientation to sportsmanship attitudes and the perceived legitimacy of injurious acts. Research Quarterly for Exercise and Sport, 62, 297-334.

Fernandes, H. (2003). Motivação no contexto da Educação Física: Estudo centrado no valor preditivo das intenções de prática desportiva, em função da motivação intrínseca. Tese de Licenciatura. Vila Real: UTAD.

Fernandes, H.; Costa, H. & Moreira, M. (2003a). Valores no Desporto: Estudo exploratório em alunos da Licenciatura em Educação Física e Desporto da UTAD. In A. Pereira (Ed.), Actas do simpósio: A actividade física - Do lazer ao rendimento (p. 169-171). Viseu: ISPV.

Fernandes, H.; Costa, H.; Moreira, M.; Bogdan, I.; Dias, L. & Serôdio-Fernandes, A. (2003b). Valores no Desporto: Estudo exploratório das atitudes desportivas e orientações motivacionais em alunos de Educação Física. Lecturas: Educación Física y Deportes (aceite para publicação).

Nicholls, J. (1989). The competitive ethos and democratic education. Cambridge: Harvard University Press.

Pereira, A. (1999). Premiar os bons exemplos, promover o Espírito Desportivo. Notícias do Espírito Desportivo [on-line], 7 (2), 3-4. Disponível em http://www.cm-oeiras.pt

Raposo, J.V. (1993). Os factores psico-sócio-culturais que influenciam e determinam a busca da excelência pelos atletas da elite desportiva portuguesa. Tese de Doutoramento. Vila Real: UTAD.

Rodríguez, L. & Vázquez, M. (2003). El processo de formación del árbitro. Lecturas: Educación Física y Deportes, 61 (9).

Simões, A. C.; Böhme, M. S. & Lucato, S. (1999). A participação dos pais na vida esportiva dos filhos. Revista Paulista de Educação Física, 13 (1), 34-45.

Vallerand, R. & Losier, G. (1994). Self-determined motivation and sportsmanship orientations: An assessment of their temporal relationship. Journal of Sport & Exercise Psychology, 16, 229-245.

Weinberg, R. & Richardson, P. (1990). Psychology of Officiating. Champaign: Human Kinetics.

 



[1] Neste ponto de intervenção, é recomendado que todos os agentes desportivos dediquem algum tempo de leitura, a uma das mensagens mais importantes, emitida pela Câmara Municipal de Oeiras: “Sem árbitro, não há desporto!”. Disponível em www.cm-oeiras.pt




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